Saudades da Delani

Era uma quinta-feira e ela chegava do cabeleireiro. A vizinha da frente, curitibaníssima com seu topete que num dia cumprimenta e no outro nem pergunta:
- Você vai ficar em casa?
No que ela respondeu com um desconfiado sim.
- Posso te pedir um favor?
- Claro.
- Estamos com um cachorrinho, ele foi traumatizado no canil, tem medo de ficar sozinho e chora muito. Eu preciso ir ao supermercado e, se ele chorar você poderia ir até a porta e falar com ele?
Impossível negar, por mais patético que venha a ser. A solidão é um bem intransferível do homem, quem não entende isto não entende nada. Minutos depois se ouve os primeiros ganidos e ela vai até a porta, se abaixa e começa uma conversa meio constrangida. O “au-au”, que não foi nomeado, responde tranqüilo e ela volta para casa. A cena se repete, acompanhada pelos risos das filhas. Na terceira, ela leva um livro, senta no capacho e lê um pouco a meia voz, murmura uns agrados e como para o ridículo é imprescindível testemunhas, passa o vizinho bonitão e diz:
- Ha ha, tá de castigo, né?
Ela sorri e acena com um positivo. O cachorrinho resolve então uivar desesperado. Não há nada mais que se possa fazer. Todas as horas seguintes serão dedicadas a pensar na impossibilidade, na dolorosa impossibilidade. Apenas o desconforto a acompanha..

Um comentário:

nani disse...

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